
O Brasil se destaca globalmente em acesso aberto, com 84% das publicações livres, e experimenta um crescimento expressivo no compartilhamento de dados científicos. No entanto, a transição para a Ciência Aberta revela custos financeiros significativos e questões de soberania.

Muito antes de a Europa chocar o mercado editorial acadêmico com o Plan S — a iniciativa radical para forçar a publicação científica em acesso livre —, o Brasil já operava uma revolução silenciosa.
Os dados extraídos do OpenAlex mostram uma trajetória inequívoca: a proporção de artigos brasileiros publicados em acesso aberto saltou de 63% em 2010 para impressionantes 84,6% em 2023.
Como o Brasil se tornou essa potência do Sul Global? A resposta reside em uma infraestrutura visionária criada no final dos anos 1990: a biblioteca eletrônica SciELO (Scientific Electronic Library Online). Financiada com recursos públicos, a SciELO estabeleceu no país a cultura da via "Diamante" — periódicos que são gratuitos tanto para quem lê quanto para quem publica.
Enquanto o Norte Global construía seu ecossistema de acesso aberto baseado na transferência de custos para os autores (o modelo de Article Processing Charges - APCs), o Brasil provou que era possível democratizar o conhecimento tratando a publicação científica como uma infraestrutura pública, não como um produto comercial.
Publicar um artigo em PDF sem catracas de pagamento (paywalls) foi a primeira batalha. A segunda — e indiscutivelmente mais complexa — é a abertura dos dados primários. Existe um abismo cultural entre "publicar de graça" e "abrir os dados brutos" que deram origem à pesquisa.
Historicamente, pesquisadores tratavam seus datasets como propriedade intelectual privada, temendo que o compartilhamento facilitasse o roubo de ideias ou expusesse erros metodológicos. Os dados mostram que esse paradigma foi quebrado de forma abrupta na virada da década.
O ano de 2020 marcou um ponto de inflexão. O número de datasets depositados por brasileiros saltou para 2.947, um reflexo direto do "efeito COVID-19". A urgência de encontrar soluções para a pandemia forçou a colaboração em tempo real, provando que o compartilhamento de sequenciamentos genéticos e dados epidemiológicos salvava vidas.
O que começou como uma resposta a uma crise sanitária consolidou-se como um novo padrão de comportamento. Em 2023, o Brasil registrou o pico histórico de 4.986 datasets publicados. O pesquisador brasileiro compreendeu que dados abertos não são uma vulnerabilidade, mas um motor de reprodutibilidade e de maior impacto acadêmico.
A curva exponencial de compartilhamento de dados não ocorreu no vácuo; ela foi ativamente induzida pelo Estado. As principais agências de fomento do país passaram a usar seu poder de financiamento para mudar a cultura dos laboratórios.
A FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) introduziram mandatos rigorosos: para receber financiamento, os pesquisadores agora precisam apresentar um Plano de Gestão de Dados (PGD). O PGD exige que o cientista detalhe como os dados serão coletados, armazenados e, crucialmente, como serão disponibilizados publicamente após a pesquisa.
Para abrigar esse volume massivo de informações, o CNPq e o Ibict lançaram em 2022 o LattesData, um repositório oficial que atribui identificadores únicos (DOIs) aos datasets de projetos fomentados.
Simultaneamente, a criação do Consórcio Nacional para Ciência Aberta (CoNCienciA) passou a federar os repositórios institucionais de universidades e centros de pesquisa (como Fiocruz e Embrapa), criando uma malha nacional de governança de dados científicos.
O fato de 85% da ciência brasileira ser aberta significa que ela é plenamente democrática? A resposta exige cautela. Por trás do otimismo dos gráficos, esconde-se uma armadilha financeira.
À medida que o movimento global de Acesso Aberto avançou, os grandes oligopólios editoriais do Norte Global adaptaram seu modelo de negócios. Em vez de cobrar assinaturas das bibliotecas, passaram a cobrar APCs (Article Processing Charges) dos autores. Para publicar um artigo em acesso aberto em uma revista estrangeira de alto impacto, um pesquisador brasileiro frequentemente se depara com taxas que variam de US$ 2.000 a US$ 5.000.
Com a desvalorização cambial, essas taxas tornaram-se abusivas e proibitivas. O Brasil vive hoje um paradoxo: construiu uma infraestrutura soberana e exemplar (SciELO, LattesData), mas a pressão acadêmica por publicações internacionais de "alto impacto" força o país a drenar seus escassos recursos de fomento para pagar pedágios em dólar a editoras comerciais europeias e americanas.
Recentemente, a CAPES começou a assinar acordos transformativos (Read and Publish) com gigantes como Springer e Elsevier para cobrir esses custos centralmente. Embora resolva o problema imediato do pesquisador, a medida levanta um debate crítico sobre a sustentabilidade do ecossistema.
A transição do Brasil para a Ciência Aberta na última década é uma vitória inegável da política pública e da resiliência acadêmica. O desafio para a próxima década não é mais
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