Por que a pressa em construir modelos de Inteligência Artificial sem a infraestrutura básica de engenharia de dados ajudou a desencadear uma das maiores ondas de demissões do setor tecnológico no país.
Durante o boom tecnológico brasileiro de 2020 a 2021, a abundância de capital de risco e o apelo em torno de decisões "data-driven" criaram uma corrida do ouro pela contratação de Cientistas e Analistas de Dados. Empresas de tecnologia de todos os portes disputavam agressivamente profissionais que pudessem construir modelos preditivos complexos, algoritmos de recomendação e painéis corporativos dinâmicos. Havia uma crença implícita de que a Inteligência Artificial e o Analytics Avançado entregariam retornos exponenciais instantâneos.
No entanto, este frenesi negligenciou o princípio fundamental da Hierarquia de Necessidades de IA: para que um cientista possa criar previsões precisas, os dados precisam ser coletados, organizados, limpos e transportados de forma confiável. Essa é a função do Engenheiro de Dados, o profissional focado em encanamento de dados, construção de pipelines e governança de infraestrutura.
Ao priorizar a ponta da pirâmide (ciência de dados) em detrimento da base (engenharia de dados), as organizações brasileiras cometeram um erro sistêmico dispendioso.
Sem pipelines automatizados e bancos de dados estruturados e de qualidade, os cientistas de dados altamente especializados — e com folhas salariais elevadas — viram-se obrigados a atuar como engenheiros de dados improvisados.
Em vez de aplicarem estatística, machine learning e modelagem para resolver problemas estratégicos de negócio, esses profissionais passaram a gastar a maior parte de sua rotina diária em atividades de limpeza, preparação manual de planilhas e manutenção de scripts frágeis.
Pesquisas acadêmicas nacionais sobre o ciclo de vida de projetos de machine learning demonstram que mais de 59% das equipes de dados reclamam da falta de profissionais de engenharia necessários para sustentar e colocar modelos em produção, o que resulta em modelos preditivos que nunca saem da gaveta ou falham por dados inconsistentes e não-confiáveis.
Com o aumento das taxas de juros globais a partir de 2022 e a consequente escassez de capital de risco fácil, a régua de eficiência operacional subiu drasticamente. O mercado brasileiro de tecnologia passou a cobrar retorno tangível e rápido sobre o investimento (ROI).
Foi neste momento que a conta do erro estratégico de infraestrutura chegou:
Baixo índice de implantação: Sem engenharia robusta para colocar os modelos em produção de forma contínua (MLOps), a grande maioria dos projetos dos cientistas continuavam arquivados como protótipos de laboratório ou jupyter notebooks inoperantes no dia a dia.
Inconsistência nas decisões: Relatórios e modelos geravam previsões discrepantes porque as fontes de dados corporativas estavam espalhadas em sistemas legados desconectados.
Custo elevado sem retorno: Departamentos de dados inteiros representavam centros de custo milionários com pouquíssimo impacto no faturamento direto das empresas.
Diante da necessidade de preservar caixa, as demissões em massa (layoffs) tornaram-se inevitáveis no mercado brasileiro, impactando profundamente o Nubank 1, Wildlife Studios 2 e diversas outras startups e unicórnios de tecnologia brasileiras. Cientistas e analistas de dados sofreram cortes significativos porque seus trabalhos estavam distantes de gerar eficiência direta para o negócio no curto prazo.
O mercado agora passa por uma severa correção de rumo. O fim do desperdício de capital gerou uma reestruturação onde as empresas aprenderam que o "encanamento" vem antes da "decoração".
Embora o setor de tecnologia venha registrando layoffs expressivos em funções de gestão burocrática, suporte e posições de dados puramente teóricas 3, há uma busca intensa e focada por profissionais de engenharia de dados, governança corporativa e tradutores de insights que saibam estruturar e governar o fluxo de dados em escala de produção real.
A lição que fica dos layoffs é clara: antes de sonhar com algoritmos de Inteligência Artificial milagrosos, as organizações precisam investir na solidez estrutural de suas fundações de dados. O Engenheiro de Dados não é apenas um facilitador técnico; ele é o viabilizador indispensável da ciência de dados de alta performance.
Belo AI







Jun 1